Turi Kaizen

ANáLISE · REVIEWS DE EPISóDIOS

Black Torch - Episódio 10 Review

No meio do treinamento brutal, Black Torch encontra uma ideia interessante: controlar Rago exige negociar com aquilo que Jiro tenta dominar.

Jiro entra na barreira anunciando que vai ficar por ali e, poucos segundos depois, já está discutindo com uma cobra sobre panela, gosto de frango e falta de educação. É um começo muito bom porque a série entende que o isolamento dele não precisa apagar sua personalidade. O cafofo improvisado, a intoxicação alimentar e a ameaça meio séria, meio ridícula da cobra mantêm vivo o humor de convivência que fez a relação com Rago funcionar desde o início.

O treinamento, porém, muda o peso dessa dinâmica. A energia deixada por Rago ganha uma forma física e reage ao estado emocional de Jiro. A solução não é simplesmente vencer o poder, mas parar de tratá-lo como uma ferramenta obediente. A ideia é direta, mas a encenação ajuda: Jiro apanha, insiste, perde o controle e só consegue avançar quando deixa de tentar esmagar aquilo que também é parte dele. Gosto especialmente de como a conversa com Rago transforma uma pergunta sobre técnica numa pergunta sobre vínculo. O episódio não resolve a separação entre os dois, mas deixa claro que Jiro não está apenas carregando uma arma emprestada.

Personagem em cena de Black Torch.

Esse é também o melhor momento para a motivação de Jiro finalmente se organizar. Ele quer reencontrar Rago, devolver o poder e reclamar da situação na cara dele. Parece uma piada, e é, mas por baixo existe uma responsabilidade concreta: Jiro não aceita que Rago seja reduzido a uma fonte de energia nem que sua própria vida seja administrada pelos interesses de Amagi e do serviço secreto. Ainda é uma motivação reativa, porém agora ela tem afeto e escolha, não só teimosia.

Uma floresta cheia de histórias

Ibuki e Monjumaru trazem a parte mais simpática do episódio. A história dos dois poderia virar exposição pesada sobre humanos e mononokes, mas a direção prefere o constrangimento de uma perseguição que soa como pedido de casamento e a rotina doméstica de chá, bronca e insistência. Monjumaru não deixa de ser um homem transformado por uma promessa absurda, enquanto Ibuki continua tratando a própria superioridade com um tédio engraçado. A diferença entre eles não é apagada pelo romance, apenas negociada ao longo do tempo. Isso conversa muito bem com o problema de Jiro e Rago.

Ibuki aparece em versão estilizada ao lado de Monjumaru, que usa uma máscara com chifres.
A encenação bem-humorada da história de Ibuki e Monjumaru dá leveza à discussão sobre humanos e mononokes.

Amagi funciona melhor quando a ameaça deixa de ser só discurso e aparece como alguém que devora os próprios aliados. A explicação sobre sua história é apressada, e a metáfora da sobrevivência do mais forte não é exatamente nova, mas o episódio acrescenta uma crueldade específica: ele transforma confiança em estoque. O contraste com Ibuki e Monjumaru torna sua proposta ainda mais amarga. Enquanto uma relação nasce de convivência e responsabilidade, Amagi quer organizar o mundo pela utilidade.

O encerramento, com Toshimasa esperando pelo retorno do neto, segura a emoção sem discursar demais. Depois de tantos poderes e barreiras, o que fica é um avô cansado perguntando o que fazer com aquele garoto. Black Torch continua irregular na exposição, mas este episódio encontra uma progressão clara: Jiro começa a controlar o poder quando aceita que não precisa controlá-lo sozinho.

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