O avô de Jiro quase mata o próprio neto, e a cena funciona justamente porque o episódio não trata isso como uma revelação solene. Toshimasa entra em cena com a autoridade de quem já sabia de tudo, dá uma bronca, dá outra, e logo transforma o reencontro numa luta brutal. A surpresa de Jiro é engraçada, mas também revela o quanto ele ainda enxerga o avô apenas como o velho que o treinou, não como alguém com uma vida inteira escondida atrás daqueles exercícios.

Essa luta é o ponto em que Black Torch confirma uma qualidade que eu queria ver depois da estreia: a ação tem peso porque nasce de uma relação concreta. Toshimasa não está testando o garoto por esporte. Ele acredita que Jiro entrou num mundo que pode destruí-lo e tenta apagar essa ameaça pela raiz. A encenação deixa a diferença de experiência muito clara, com Jiro apanhando, errando e insistindo até entender que a determinação ensinada pelo avô não significa fazer tudo sozinho.
É aí que Rago deixa de ser apenas uma presença incômoda dentro do corpo do protagonista. A união entre os dois continua cheia de reclamações, mas o episódio muda seu sentido. Jiro finalmente aceita pedir ajuda, e Rago finalmente oferece sua força sem transformar isso numa declaração sentimental. O banho depois da briga é quase uma negociação diplomática entre dois sujeitos feridos, orgulhosos e incapazes de falar bonito. Quando Rago admite que pode emprestar seu poder, a parceria ainda não parece confortável. Parece possível, que é bem mais interessante.

O cotidiano também segura muito bem o episódio. Jiro foge de um hospital secreto, volta para casa e encontra um avô que já conhece toda a situação. Depois, os corvos que ajudaram na fuga recebem um lanche como se fossem colegas de trabalho. Esse pequeno gesto é talvez a melhor lembrança de que a habilidade de Jiro não serve apenas para introduzir monstros ou explicar a premissa. Ela cria uma maneira específica de olhar para o mundo, tratando animais, humanos e mononokes com a mesma disposição de escuta.
O serviço secreto ganha personalidade, embora ainda seja apresentado por bastante exposição. Shiba é mais razoável do que Ichika, e a insistência dela tem um timing cômico eficaz, mas a organização continua parecendo mais uma engrenagem narrativa do que um grupo plenamente definido. A ideia de que Jiro foi oficialmente dado como desaparecido, sem direito a simplesmente recusar a proteção, acrescenta uma tensão institucional interessante. Eles dizem estar protegendo, mas controlam cada saída.
O episódio avança a história sem abandonar a casa, o banheiro e as conversas atravessadas. Para mim, essa é a direção mais promissora de Black Torch: o mundo secreto pode ser grande, mas a série fica mais viva quando o sobrenatural precisa caber na rotina de uma família teimosa. Agora quero ver como Jiro vai lidar com o treinamento e com o serviço secreto sem perder essa ética de cuidado que continua sendo sua melhor característica.