Ichika Kishimojin entra em Black Torch chamando Jiro de aberração, pirralho e prisioneiro. É uma apresentação agressiva, quase barulhenta demais, mas o episódio sabe exatamente o que está fazendo ao colocá-la dentro daquele caminhão: antes de ser uma nova integrante do elenco, ela é a pessoa encarregada de lembrar que Jiro não está livre.
A dinâmica entre os dois funciona porque nenhum deles aceita a posição que recebeu. Ichika trata Jiro como risco operacional, enquanto ele reage ao controle com a mesma irritação impulsiva que já conhecemos. Rago, naturalmente, transforma a viagem numa terceira voz de deboche. O humor nasce menos de uma piada isolada do que do atrito contínuo entre três personagens que prefeririam estar dormindo, brigando ou simplesmente longe uns dos outros.

O melhor momento dessa relação aparece quando Jiro decide ajudar Ichika durante o ataque. Rago tenta reduzir tudo a uma disputa de interesses, mas Jiro enxerga algo mais simples: há alguém lutando para proteger os dois. A formulação dele é desajeitada, até porque o episódio ainda insiste em fazê-lo falar pela lógica de uma masculinidade impulsiva, mas a escolha é coerente com a ética de cuidado que vem sendo construída desde a estreia. Ele não confia no serviço secreto. Só não consegue ficar parado diante de uma pessoa em perigo.
Ichika também ganha uma função mais interessante quando o episódio revela o peso de sua sucessão. Os homens que a tratam como menina e questionam sua posição não são sutis, e a série praticamente desenha o conflito com marcador grosso. Ainda assim, há força na maneira como ela responde: sua competência não depende de ser simpática, e a luta contra os mononokes deixa claro que ela não está ali apenas para ser salva ou comentar a situação.

O problema é que a encenação frequentemente enfraquece essa ideia com enquadramentos insistentes sobre o corpo de Ichika. A personagem fala sobre desrespeito às mulheres enquanto a câmera a transforma repetidamente em espetáculo. Não é uma contradição impossível de superar, mas é uma escolha que rouba precisão de uma personagem que merecia ser apresentada pelo controle, pela raiva e pelo passado, não apenas pela armadura apertada.
Depois da batalha, a criação da unidade Black Torch desloca a série da contenção para uma equipe em formação. Reiji chega com o tipo de confiança aristocrática que pede conflito imediato, e Shiba entende que rivalidade também pode ser método de treinamento. O episódio termina prometendo uma convivência muito mais interessante do que a burocracia do serviço secreto sugeria. Jiro ainda quer liberdade, mas agora a série começa a testar se ele consegue construir alguma autonomia ao lado de outras pessoas.