Turi Kaizen

ANáLISE · REVIEWS DE EPISóDIOS

Black Torch - Episódio 3 Review

Ichika chega com personalidade, preconceitos e uma luta que finalmente transforma a vigilância sobre Jiro em começo de equipe.

Ichika Kishimojin entra em Black Torch chamando Jiro de aberração, pirralho e prisioneiro. É uma apresentação agressiva, quase barulhenta demais, mas o episódio sabe exatamente o que está fazendo ao colocá-la dentro daquele caminhão: antes de ser uma nova integrante do elenco, ela é a pessoa encarregada de lembrar que Jiro não está livre.

A dinâmica entre os dois funciona porque nenhum deles aceita a posição que recebeu. Ichika trata Jiro como risco operacional, enquanto ele reage ao controle com a mesma irritação impulsiva que já conhecemos. Rago, naturalmente, transforma a viagem numa terceira voz de deboche. O humor nasce menos de uma piada isolada do que do atrito contínuo entre três personagens que prefeririam estar dormindo, brigando ou simplesmente longe uns dos outros.

Personagem em cena de Black Torch.

O melhor momento dessa relação aparece quando Jiro decide ajudar Ichika durante o ataque. Rago tenta reduzir tudo a uma disputa de interesses, mas Jiro enxerga algo mais simples: há alguém lutando para proteger os dois. A formulação dele é desajeitada, até porque o episódio ainda insiste em fazê-lo falar pela lógica de uma masculinidade impulsiva, mas a escolha é coerente com a ética de cuidado que vem sendo construída desde a estreia. Ele não confia no serviço secreto. Só não consegue ficar parado diante de uma pessoa em perigo.

Ichika também ganha uma função mais interessante quando o episódio revela o peso de sua sucessão. Os homens que a tratam como menina e questionam sua posição não são sutis, e a série praticamente desenha o conflito com marcador grosso. Ainda assim, há força na maneira como ela responde: sua competência não depende de ser simpática, e a luta contra os mononokes deixa claro que ela não está ali apenas para ser salva ou comentar a situação.

Personagem em cena de Black Torch.

O problema é que a encenação frequentemente enfraquece essa ideia com enquadramentos insistentes sobre o corpo de Ichika. A personagem fala sobre desrespeito às mulheres enquanto a câmera a transforma repetidamente em espetáculo. Não é uma contradição impossível de superar, mas é uma escolha que rouba precisão de uma personagem que merecia ser apresentada pelo controle, pela raiva e pelo passado, não apenas pela armadura apertada.

Depois da batalha, a criação da unidade Black Torch desloca a série da contenção para uma equipe em formação. Reiji chega com o tipo de confiança aristocrática que pede conflito imediato, e Shiba entende que rivalidade também pode ser método de treinamento. O episódio termina prometendo uma convivência muito mais interessante do que a burocracia do serviço secreto sugeria. Jiro ainda quer liberdade, mas agora a série começa a testar se ele consegue construir alguma autonomia ao lado de outras pessoas.

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