A melhor piada de Chainsmoker Cat é também a mais amarga: basta Yani ficar longe por algumas horas para o cheiro do cigarro reaparecer como uma pista criminal. O passeio a Kyoto parece dar uma folga à personagem, mas a pilha de bitucas no corredor escuro lembra que ela continua presente mesmo quando não está em cena. É uma maneira esperta de transformar ausência em encenação.
O episódio acerta ao usar a viagem como passeio, pesquisa e desastre financeiro ao mesmo tempo. Saori quer justificar o gasto com o mangá, Imoko tenta aproveitar a excursão e todo mundo entra na lógica de comprar, comer e tirar sorte como se o dinheiro fosse infinito. O humor funciona melhor quando nasce desse contraste entre a solenidade dos templos e a ansiedade miúda de quem só quer fumar, receber lembrancinha ou conseguir um recibo.

A conversa de Yani com o Rei dos Veados é o centro mais curioso do capítulo. A cena começa como uma gag de turismo, com biscoitos e animais cercando visitantes, mas ganha um tom quase melancólico quando ele fala sobre inteligência, solidão e a perda gradual da própria consciência. Yani responde oferecendo um cigarro, claro, mas a piada não apaga completamente a estranheza da conversa. Pelo contrário: a fumaça vira a resposta mais coerente que ela consegue dar a uma pergunta existencial.
Também gostei de como a história do povo-fera aparece atravessada por desconforto. O museu transforma perseguição, exploração e memória em atração turística, enquanto as personagens percebem que a versão oficial é conveniente demais. A série não desenvolve isso o suficiente para virar um eixo dramático, mas a ideia é boa e combina com o modo como ela observa instituições que embrulham problemas sérios em diversão para visitantes.

O retorno ao carro muda o tom com precisão. Saori descobre que o mangá será encerrado justamente quando acredita ter encontrado uma nova direção, e o episódio deixa a crise dela escapar por piadas cada vez mais tortas. O acidente reforça a superstição das sortes ruins, mas o dano mais interessante é emocional: a viagem foi um sucesso para todo mundo, menos para quem a financiou. Yani continua sem mudar, como sempre. Ainda assim, ao colocar Saori diante de uma perda concreta, o capítulo abre uma pergunta mais forte para o final: quem sustenta quem quando a pessoa que organiza a excursão também desaba?