Eu não esperava que a série fosse resolver a chegada de Mimi com tanta pressa, e o problema não é simplesmente Hiro não ser um protagonista covarde. Ele recusa a situação inicialmente, mas a garota está órfã, endividada, sem trabalho e acabou de ser acolhida por ele. Mesmo dizendo que é sua vontade, Mimi está numa posição de dependência evidente. Elma até verbaliza o limite moral da cena, ao lembrar que usar uma posição de poder para forçar um relacionamento não é aceitável, mas o episódio passa rápido demais pela consequência dessa observação.

O que funciona melhor é a maneira como a convivência começa a ganhar textura. Hiro paga os 500 mil eners, arranja roupas, cozinha, mostra o quarto e trata Mimi como parte da tripulação antes de tratá-la como interesse romântico. A comida artificial, o treino para evitar a perda muscular e a preocupação com equipamentos dão à nave uma rotina quase doméstica. É justamente esse cuidado concreto que torna a decisão da noite anterior mais desconfortável: a série sabe construir confiança, mas ainda parece tentada a convertê-la rapidamente em recompensa sexual.
Mimi melhora bastante quando o episódio deixa de apresentá-la como alguém a ser salva. No cadastro da guilda, ela recebe um caminho de aprendizagem como operadora e, durante a operação, passa a acompanhar radar, comunicações e posições inimigas. O nervosismo continua visível, mas ela consegue cumprir sua função. A pequena ordem de voltarem vivos funciona melhor do que qualquer discurso sobre pertencimento, porque transforma a timidez dela em responsabilidade compartilhada.

A batalha também confirma uma qualidade que eu já tinha notado no episódio anterior: a ação entende espaço e função. Hiro não vence apenas apertando o botão da nave mais forte. Ele reduz a potência do gerador, usa a confusão dos destroços e transforma a ocultação térmica numa solução prática. O combate mantém clareza mesmo quando várias naves entram em cena, e a sequência da piloto que perde o controle impede que a superioridade técnica pareça completamente sem custo.
No fim, a casa com jardim continua sendo uma meta ótima para Hiro, ainda mais quando a conversa passa por sua saudade de bebidas gaseificadas. É uma ambição engraçada porque mantém a escala da série humana. A promessa de um próximo capítulo centrado em Elma também é bem-vinda. Ela segue sendo a personagem mais capaz de furar a pose de Hiro, e eu espero que sua história não vire apenas mais uma dívida a ser paga por ele. Este episódio encontrou uma tripulação; agora precisa aprender a dar autonomia real a cada pessoa dentro dela.