Turi Kaizen

ANáLISE · REVIEWS DE EPISóDIOS

Sparks of Tomorrow - Episódio 9 Review

Um episódio sobre sonhos herdados, promessas quebradas e a difícil tarefa de desejar alguma coisa por conta própria.

Kihachi invade um barco vestido de maneira ridícula, escala o casco com uma invenção elétrica improvisada e entrega o Catálogo Elétrico como quem devolve a própria infância. É uma imagem engraçada, mas a cena não trata o gesto como piada. Sparks of Tomorrow entende que desistir de um sonho pode ser tão dramático quanto persegui-lo, especialmente quando esse sonho pertence também a alguém que desapareceu.

O passado que Yosuke não consegue abandonar

A melhor escolha do episódio é transformar Yosuke em um espelho torto de Kihachi. O flashback mostra os dois jovens fascinados por máquinas, ligados pela promessa de construir um futuro em que vapor e eletricidade trabalhariam juntos. No presente, porém, Yosuke reduziu essa promessa ao catálogo e à influência da Companhia Mizoe. Minha leitura é que ele não procura apenas um documento: procura uma maneira material de recuperar Seiroku, como se cada página pudesse desfazer a perda.

Personagem em cena de Sparks of Tomorrow.

O contraste fica ainda mais forte porque a série encena as lembranças com delicadeza. Seiroku aparece curioso, expansivo e disposto a compartilhar conhecimento; Yosuke, que antes acreditava nele, reage à notícia de sua morte como alguém que perdeu o eixo. A repetição de gestos, livros e experimentos dá peso à amizade sem precisar transformar o flashback em discurso sentimental. Quando Yosuke finalmente encontra o catálogo, a alegria dele é quase assustadora justamente por parecer sincera.

Enquanto isso, Inako toma uma decisão que todos ao redor interpretam como maturidade, mas que o episódio deixa deliberadamente desconfortável. Ela aceita o casamento para salvar a fábrica de saquê, embora o próprio diálogo lembre que existia outro desejo ali: tornar-se mestre do saquê. A encenação das conversas familiares, com corpos separados por mesas, portas e corredores, mostra como a escolha dela é cercada por expectativas antes mesmo de virar escolha de fato.

Comédia, aventura e uma promessa nova

O humor continua funcionando nos detalhes. Kihachi chama Inako de “Inago”, Yosuke se irrita com a própria família, e a infiltração no barco mistura espionagem improvisada com uma fantasia de baile que não combina nem um pouco com o protagonista. O timing é especialmente bom quando a grandiosidade da situação é interrompida por uma bronca ou por uma invenção que parece ter saído de um caderno escolar.

Kihachi em um corredor escuro, com os braços cruzados e expressão determinada.
Kihachi deixa de tratar o catálogo como a única fonte possível para o sonho da eletricidade.

O ponto decisivo vem quando Kihachi afirma que criará a Era da Eletricidade mesmo sem o catálogo. Até aqui, ele perseguia o sonho de Seiroku; agora começa a reivindicá-lo como seu. A frase não apaga o luto, mas muda sua direção. O episódio termina com a relação entre Kihachi e Yosuke ainda em conflito, só que o catálogo deixou de ser a única coisa capaz de manter o futuro vivo. Essa é uma despedida adequada: de um objeto, de uma ilusão e talvez da ideia de que sonhar é apenas repetir alguém.

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