Fia passou três meses treinando magia para virar uma cavaleira discreta. O resultado é uma garota que transforma a prova de admissão numa demonstração pública de talentos, uma espada comum num tesouro nacional e qualquer tentativa de anonimato em propaganda pessoal. A graça do episódio está justamente nessa contradição. Ela entende perfeitamente o que deveria esconder, mas sempre encontra uma justificativa muito razoável para fazer exatamente o contrário.
A sequência da espada encantada é o melhor exemplo. Fia aplica melhorias, usa um feitiço para disfarçá-las e acredita sinceramente que ninguém vai notar. Quando a arma é revelada, o pânico dela chega antes da explicação e o humor nasce do intervalo entre a esperteza técnica e a completa incapacidade de prever consequências. A frase sobre uma vitória ser uma vitória também resume bem a personagem: ela pode ter poderes de Santa, mas continua pensando como alguém que só quer passar na prova e ir para casa.

O episódio acerta ainda mais quando coloca essa competência absurda ao lado da Fia socialmente estabanada. Ela cura Fabian sem que ele perceba, confunde o título de marquês com lenda urbana e não entende o próprio efeito sobre as pessoas. Depois, diante de Saviz, a situação muda de tom. O duelo é encenado como espetáculo público, com a cerimônia inteira reagindo ao som das espadas, mas Fia continua concentrada em detalhes que ninguém mais percebe.
É aí que a protagonista deixa de ser apenas uma máquina de acidentes engraçados. Ao notar que Saviz poupa a perna esquerda, ela ajusta seus ataques por cuidado e por estratégia. A justificativa de cavalheirismo é uma desculpa ruim, mas a observação do machucado é precisa o bastante para fazer o comandante prestar atenção nela. A série ainda não precisa explicar demais por que Fia é especial. Basta mostrar o modo como ela olha para uma luta.

Uma nova ordem, os mesmos problemas
A cerimônia de ingresso amplia o mundo dos cavaleiros, embora a exposição sobre ordens, família real e hierarquia militar fique um pouco carregada. Mesmo assim, a encenação melhora quando a multidão silencia para Saviz e Fia percebe que entrou num espaço muito maior do que imaginava. Ser colocada na Primeira Ordem parece uma recompensa, mas também aproxima seu passado de uma família que ela associa à própria morte. A comédia continua leve, só que agora existe uma pressão mais concreta por baixo dela.
Gostei especialmente de o episódio não resolver essa tensão com um segredo imediatamente descoberto. Saviz percebe que há algo incomum em Fia, enquanto os outros comandantes tentam interpretar seu comportamento. Ela continua parecendo brilhante para quem observa de fora e completamente perdida por dentro. A conversa final sobre o xadrez reforça essa dualidade sem apagar a piada. Fia não é apenas poderosa ou apenas boba. Ela é assustadoramente boa em medir uma situação e péssima em perceber o que está comunicando. Para uma personagem que quer passar despercebida, é um problema excelente.