O melhor momento deste episódio talvez seja Hiro tentando parecer tranquilo enquanto o próprio corpo denuncia que ele está passando mal depois de brincar de piloto de nave invencível. A ação espacial funciona porque não é tratada como uma aula de tecnologia: a Krishna acelera, desvia e dispara com uma eficiência quase absurda, enquanto o capitão ainda está tentando entender se aquilo é sonho. O contraste entre a potência da nave e a falta de preparo emocional do sujeito dá à cena um timing cômico muito bom.

Hiro também ganha pontos por não ser o típico adolescente convocado para salvar o mundo. Ele pensa em dinheiro, comida, custo de atracação e numa futura casa com jardim. É uma ambição pequena diante do tamanho do universo, mas justamente por isso cria uma personalidade mais concreta. A série entende que liberdade espacial, sem recursos, é só uma maneira bonita de dizer que você está perdido. Até a burocracia do porto e o registro na guilda ajudam a transformar a fantasia em rotina.
O episódio fica mais irregular quando tenta apresentar Elma. A dinâmica entre os dois é naturalmente divertida, principalmente porque ela enxerga a incompetência social de Hiro antes que ele próprio perceba. O passeio pela colônia, a discussão sobre bebida gaseificada e o teste de classificação têm uma leveza de comédia cotidiana que combina muito com a proposta. Por outro lado, os comentários dele sobre o corpo dela são tão diretos que a cena depende bastante da disposição do espectador para aceitar esse protagonista sem filtro. Eu ri de algumas respostas de Elma, mas não acho que o texto consiga sempre separar provocação de objetificação.

Mesmo assim, Elma é quem impede a segunda metade de virar apenas um balcão de exposição. Ela conhece as regras daquele lugar, sabe que Hiro é suspeito e não tem paciência para a pose de herói. Quando a violência aparece na rua, a série ensaia uma tensão interessante entre sobrevivência e indiferença. Hiro quer intervir porque ainda carrega uma noção de justiça mais heroica; Elma lembra que aquele mundo não premia automaticamente quem tenta fazer o certo. A discussão é simples, mas abre uma pergunta melhor do que a maioria das explicações sobre o cenário.
Há momentos visualmente estáticos e alguns rostos pouco consistentes, mas as batalhas e a leitura dos interiores da nave sustentam bem o episódio. O fechamento, com a apresentação de Mimi, funciona como promessa de continuidade. Saio menos interessado na origem do deslocamento de Hiro do que em acompanhar como esse adulto pragmático vai negociar dinheiro, reputação e vínculos num universo que parece jogo, mas cobra consequências bem reais.